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.das conclusões sobre o amor


I

quando chegar aos 30 anos
carregarás no peito o coração dos combatentes
entenderás que não importa quanto insistente o amor seja
toda hora a mudar o lugar de todas as coisas
primeiro haverá de pensar minuciosamente
se a nova ordenação possui algum sentido
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.de quando faço as avenidas chorarem






Um olhar cruzado na rua 
um sorriso discreto
sobre um pensamento distante 
um tropeço nas nuvens
ao levantar os olhos
sempre faz com que tudo aconteça
e sim, tudo, tudo mesmo
tudo será diferente
te darei aqui cem milhões de motivos para ficar
rosas roubadas e corações partidos... 

e um também retratos
para emoldurar em quadro meu!
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.dos corações sorridentes


sua vida é a sua vida
não deixe que ela seja esmagada na fria submissão
esteja atento
existem outros caminhos, e em algum lugar, ainda existe luz
pode não ser muita luz, mas ela sempre vence a escuridão
esteja atento
e os deuses vão lhe oferecer oportunidades
conheça-as
agarre-as
você não pode vencer a morte
mas voce pode vencer a morte durante a vida, às vezes
e quanto mais aprender a fazer isto, mais luz vai existir
sua vida é a sua vida
conheça-a enquanto ela ainda é sua
você é maravilhoso
os deuses esperam para se deliciar em você

*bukowski, charles
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.dos contos inacabados


Um poema difícil estampava a janela do ônibus e a manhã de chuva, tinha certeza, não daria trégua.
Acomodei-me num acento proximo à porta, não que seja exclusividade ou caprixo em manhãs assim, mas se tratava do último lugar disponível num carro completamente lotado de guarda-chuvas acompanhando seus donos de estimação até o trabalho.

As vezes os guarda-chuvas treinam bem seus donos e eles por sua vez gentilmente sedem lugar para idosos, grávidas, etc, mas não se trata deste dia pois hoje é fim de agosto e tudo já está se arrastando neste inverno e até as gentilezas são raras nesta época do ano.

Entre um esbarrão e outro me levanto, cedendo lugar ao guarda-chuva xadrez que desceria no próximo ponto, enquanto um outro grande, escuro e imponente tomava conta do espaço da janela. Era Mariana, a garota com nome de bom dia que acabava de acomodar-se ali. Simpática pensei eu enquanto o seu guarda-chuva grandalhão me encarava desconfiado. As bochechas rosadas não chamam atenção mas o sorriso sim, este era implacável ocupando o meu acento e o dela.

Fale algo inteligente, pensei baixo. Vinho logo pela manhã é sempre uma boa opção, falei alto.

Ótimo espertão, conseguiu fazer acabar ali a história que nem tinha começado.

Ela sorri: - Acho que estou doente, bochechas vermelhas, rosto quente. E completa: Poema estranho este na janela né, parece que falta algo, as vezes tem poemas assim, difíceis.

- Vi um filme ontem que era igualmente estranho ontem. Uma história de amor só dura 90 minutos. Pavor que tenho de que pessoas contem um filme fiz um rápido resumo na minha cabeça e disse: O guri é escritor, a garota estuda algo confuso. Envolvem-se num triângulo amoroso com uma amiga do casal, é doido mas bastante engraçado.

- Mas eles se conhecem?

- Sim, mas na verdade não, quer dizer: conhecem mas não necessariamente todos estão juntos ao mesmo tempo.

- Ah tá.

- Até pensei ontem, juntando com o poema de hoje e tudo o que mais aconteceu em escrever algo, talvez um conto, sei lá. Certamente começaria com: Procuro um amor que seja capaz de chorar no verão, mas sem exagero porque não gosto da casa húmida nesta época do ano.

- Tu é doido, escreve é?

- Bem, as vezes, contos, poemas, coisas... Mas estes dias são difíceis, chegamos no trabalho ainda escuro e saímos quando já é noite. Num breve momento, como fosse uma espécie de liberdade assistida, tomamos sol no caminho do almoço. "Mas não demorem" ecoa uma voz robótica que ruge e exige que tudo seja rápido, com pressa, como este ônibus que poderia facilmente durar, sei lá, uns 90 minutos.

- Bem, mas pelo menos assim chegará no trabalho e dirá que sorriu, por isto as bochechas vermelhas.

- Mas o culpado pode ter sido o vinho, afinal nunca ninguem saberá ao certo, exceto eu.

Ela tinha ouvido, a chuva tinha parado e o porquê do nome fazia todo sentido.

A garota com nome de bom dia.

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.do despreparo



Era cedo, pouco adiante das 8 da manhã e naquele instante eu estava com a retumbante certeza de que poucas coisas na vida possuem a plena capacidade como a de um alarme de celular transformar travesseiros em rocha pura e deixar cobertores com textura áspera e asquerosa quase te obrigando a levantar.

Lembrei-me por algum motivo de uma época remota perdida entre as minhas descobertas da pré-adolescência... trancados no quarto as horas lá fora empurravam as pessoas em suas rotinas, carros com motores pulsantes zuniam nas ruas e o calendário avançava sem dó mês adentro. Eu e ela, dentro um do outro saciando uma sede árida com a pouca saliva que nos restava e com um certo orgulho ingênuo tempestuávamos sobre a calmaria que a situação pedia. Só tínhamos um ao outro e só precisávamos daquilo e mais nada, pois lá fora, tudo não passava de horas, de dias, de meses, de marcações estúpidas e retóricas inventadas para regrar o que não precisa ser regrado.

Devidamente mastigado durante um fim de verão, um outono e um copioso inverno tudo que eu precisei estava logo ali, ao alcance de uma rolada no colchão ou de um comprimido revestido de algum material sintético de absorção lenta. A sensação de estranheza foi se tornando raciocínio lógico, o despertador tocava, os olhos observavam o travesseiro recém transformado em pedra, era pouco adiante das 8 da manhã de sexta-feira e eu não parecia estar preparado para aquilo.
 
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